Crimes cibernéticos e desafios virtuais ameaçam adolescentes e acendem alerta para famílias e escolas
A violência contra adolescentes não acontece apenas nas ruas, nas escolas ou em outros espaços físicos. Com o avanço das mídias sociais e das ferramentas digitais, ameaças, humilhações, extorsões e até a divulgação de imagens íntimas encontram espaço na internet, trazendo consequências que podem ultrapassar as telas e afetar a vida pessoal, emocional e escolar das vítimas.
Em União da Vitória e região, o tema reforça a importância da prevenção, da orientação das famílias e da preparação das instituições para enfrentar os crimes cibernéticos.
Entre as situações que merecem atenção estão o cyberbullying, a criação de perfis falsos, os golpes virtuais, o aliciamento de menores e a divulgação de imagens íntimas sem consentimento.
O alerta é do advogado Flávio Araújo Medeiros, especialista em direito digital e proteção de dados, que destaca ainda uma modalidade particularmente preocupante: a sextorsão, prática em que criminosos utilizam imagens íntimas para ameaçar as vítimas, exigindo dinheiro ou o envio de novos conteúdos.
“Muitas vezes, o adolescente acaba cedendo por medo de que aquele conteúdo seja divulgado”, explica o advogado.
Segundo Medeiros, o receio de procurar ajuda pode agravar a situação. Vergonha, medo da reação dos pais e preocupação com possíveis punições fazem com que muitos adolescentes escondam o que estão enfrentando. Por isso, o especialista ressalta que o enfrentamento da violência digital depende não apenas da investigação policial, mas também da capacidade de familiares e educadores de oferecer acolhimento e segurança.
Embora essas práticas representem riscos reais, não é possível afirmar quais crimes cibernéticos são mais frequentes em União da Vitória sem consultar dados oficiais das autoridades policiais. Para o advogado, porém, o problema não se limita aos grandes centros urbanos: qualquer adolescente com acesso à internet pode estar exposto.
Inteligência artificial amplia os riscos
Além das formas tradicionais de violência virtual, o uso da inteligência artificial para produzir imagens e vídeos falsos de conteúdo sexual acrescenta um novo desafio à proteção de crianças e adolescentes. Conhecidos como deepfakes, esses materiais podem ser criados a partir de fotografias comuns publicadas nas redes sociais, manipulando o rosto de uma pessoa para simular uma situação que nunca aconteceu.
O resultado pode ser compartilhado entre colegas, circular em grupos de mensagens e provocar constrangimento, humilhação e danos à reputação da vítima. Mesmo quando o conteúdo é falso, as consequências para quem tem a imagem utilizada indevidamente podem ser reais e duradouras.
“Uma simples fotografia publicada nas mídias sociais pode ser utilizada para criar um vídeo pornográfico falso com inteligência artificial”, alerta Medeiros.
O especialista ressalta que publicar uma fotografia na internet não significa autorizar terceiros a utilizarem aquela imagem para produzir conteúdo impróprio. A tecnologia também não elimina, por si só, a responsabilidade jurídica de quem cria ou divulga esse material.
Crimes virtuais podem gerar responsabilização
A legislação brasileira prevê diferentes formas de responsabilização para condutas praticadas no ambiente digital. Dependendo das circunstâncias, ameaças, perseguição, extorsão e divulgação não autorizada de imagens íntimas podem configurar crimes específicos.
O cyberbullying também passou a ser tratado expressamente no Código Penal pela Lei nº 14.811/2024. A responsabilização depende da conduta praticada e das circunstâncias de cada caso.
Quando os envolvidos são adolescentes, a legislação prevê a possibilidade de apuração de ato infracional e aplicação das medidas socioeducativas cabíveis. Além das consequências na esfera criminal ou socioeducativa, também pode haver obrigação de indenizar a vítima pelos danos sofridos.
A circulação de conteúdo produzido por inteligência artificial exige atenção especial quando envolve crianças e adolescentes em situações de violência sexual. Por isso, a família deve procurar orientação das autoridades diante da criação ou divulgação desse tipo de material, evitando compartilhá-lo ou reproduzi-lo na tentativa de denunciar.
Mudanças de comportamento podem indicar que algo está errado
Nem sempre a vítima consegue contar diretamente o que está acontecendo. Em muitos casos, os primeiros sinais aparecem no comportamento cotidiano.
Isolamento repentino, ansiedade ao receber mensagens, queda no rendimento escolar e afastamento de determinados colegas são alguns dos sinais que merecem atenção. Essas mudanças não significam necessariamente que o adolescente esteja sofrendo violência virtual, mas podem indicar a necessidade de uma conversa cuidadosa.
Para Medeiros, a reação dos adultos é decisiva para que os jovens se sintam seguros para pedir ajuda. “O adolescente deve saber que pode procurar os pais ou alguém de confiança sem medo de ser julgado”, orienta.
O advogado também destaca a responsabilidade das escolas, especialmente quando surgem episódios de humilhação, exclusão ou exposição de estudantes em grupos de mensagens. A prevenção, segundo ele, deve ocorrer antes que os conflitos se agravem, com diálogo permanente entre estudantes, famílias e educadores.
Como agir diante de uma ameaça virtual
Ao descobrir que um adolescente está sendo ameaçado, extorquido ou exposto na internet, a primeira orientação é acolher a vítima e evitar julgamentos. A família deve preservar informações que possam auxiliar na investigação, como mensagens, identificação dos perfis, links, datas e horários.
Quando houver imagens íntimas de crianças ou adolescentes, é importante não baixar, reproduzir ou compartilhar o material indiscriminadamente. O ideal é preservar os links e as informações necessárias para localizar o conteúdo e buscar orientação das autoridades sobre como apresentar as provas.
Em situações de extorsão, o advogado recomenda não realizar pagamentos nem enviar novas imagens, pois isso não garante o fim das ameaças e pode agravar o problema.
A ocorrência pode ser registrada junto à Polícia Civil. O Conselho Tutelar também pode ser procurado para auxiliar na proteção do adolescente. Outros canais disponíveis incluem o Disque 100, a SaferNet Brasil e os mecanismos de denúncia das próprias plataformas digitais.
A remoção do conteúdo divulgado indevidamente também deve ser considerada, conforme as circunstâncias do caso.
Prevenção começa dentro de casa e nas escolas
Para o especialista, a educação digital é uma das principais ferramentas para reduzir os riscos. Mais do que restringir o uso de celulares e redes sociais, é necessário ensinar crianças e adolescentes a proteger informações pessoais, desconfiar de contatos desconhecidos, reconhecer ameaças e compreender que as ações realizadas na internet também podem gerar consequências jurídicas.
Nas escolas, palestras, campanhas e atividades sobre cyberbullying, privacidade, segurança digital e uso da inteligência artificial podem contribuir para ampliar a conscientização. O poder público, por sua vez, pode fortalecer campanhas preventivas, capacitar profissionais e melhorar o acesso das famílias aos canais de atendimento.
Ao avaliar a realidade de União da Vitória e região, Medeiros considera que ainda há espaço para avançar, principalmente na prevenção e na orientação dos responsáveis. Uma avaliação mais precisa sobre a capacidade local de enfrentamento, porém, depende de informações sobre a estrutura de atendimento, investigação e os dados oficiais de ocorrências.
A principal mensagem, segundo o advogado, é que a violência praticada na internet não deve ser tratada como algo menos grave por acontecer em um ambiente virtual.
“A internet não é um mundo separado da nossa realidade. Aquilo que acontece no ambiente virtual pode afetar diretamente a vida de uma pessoa, sua saúde emocional, seus relacionamentos e até seu futuro”, afirma.
Para crianças e adolescentes, a possibilidade de pedir ajuda sem medo de punição ou julgamento pode ser determinante para interromper o ciclo de violência. Em um cenário no qual a tecnologia amplia as possibilidades de interação, mas também de exposição, informação, acolhimento e denúncia são fundamentais para a proteção dos jovens.



