A dor de perder alguém: por que o luto não tem prazo para acabar?
O Dia de Finados, celebrado nesta segunda-feira, 2, foi marcado por uma reflexão sobre a saudade, a perda e os desafios de aprender a conviver com a ausência de pessoas queridas. Durante o programa União é Notícia, a psicóloga Daniele Jasniewski participou de uma entrevista, abordando os aspectos emocionais do luto e a importância de acolher os sentimentos que surgem após uma perda.
Logo no início da conversa, a profissional destacou que falar sobre a morte e o sofrimento provocado pela ausência ainda é considerado um tabu na sociedade, embora seja um assunto necessário para a saúde emocional.
Segundo Daniele, o luto é uma reação natural diante de uma perda significativa e não está relacionado exclusivamente à morte de alguém. O término de um relacionamento, a perda de um emprego ou até mesmo uma mudança de cidade podem desencadear processos semelhantes.
O impacto inicial da perda
Durante a entrevista, Rafael questionou como a psicologia compreende os primeiros momentos do luto, especialmente quando a pessoa parece não conseguir assimilar o que aconteceu.
Daniele explicou que uma das reações iniciais pode ser o estado de choque, no qual a pessoa apresenta uma sensação de anestesia emocional diante da notícia.
Essa resposta pode funcionar como uma forma temporária de proteção psicológica, permitindo que o indivíduo enfrente as primeiras exigências práticas, como organizar o funeral, comunicar familiares e resolver questões burocráticas.
A psicóloga relacionou essa experiência à expressão popular “a ficha ainda não caiu“, utilizada quando alguém demora a compreender emocionalmente a dimensão de uma perda.
Com o passar do tempo, a ausência começa a ser percebida de maneira mais concreta, especialmente nas atividades cotidianas e nos momentos que antes eram compartilhados com a pessoa falecida.
Embora essas reações sejam comuns, não existe um período fixo de duração do choque emocional, e a experiência pode variar significativamente entre as pessoas.
Morte repentina pode tornar o processo mais difícil
Outro tema abordado foi a diferença entre o luto provocado por uma morte inesperada e aquele vivenciado após um longo período de doença.
Segundo Daniele, quando um familiar enfrenta uma enfermidade prolongada, pode ocorrer um processo de preparação emocional conhecido como luto antecipatório.
Nessas situações, familiares e pessoas próximas começam a lidar, ainda durante o tratamento, com a possibilidade da despedida.
Já nos casos de morte repentina, a ausência de preparação pode intensificar sentimentos como incredulidade, desespero e dificuldade de aceitação.
A psicóloga ressaltou, entretanto, que ninguém está completamente preparado para perder alguém importante, independentemente das circunstâncias.
Luto não segue uma sequência de etapas
Um dos principais pontos destacados durante a conversa foi que o luto não acontece de maneira linear.
Daniele explicou que cada pessoa reage de forma diferente, conforme seu histórico emocional, as experiências anteriores de perda, a relação com quem morreu e as circunstâncias da morte.
Entre as reações possíveis está a negação, quando o indivíduo encontra dificuldades para reconhecer a ausência.
Isso pode se manifestar em atitudes como evitar entrar no quarto da pessoa falecida, não conseguir conversar sobre a morte ou, por hábito, pensar em enviar uma mensagem para alguém que já não está presente.
Esses comportamentos podem fazer parte da adaptação à nova realidade.
Entretanto, quando o sofrimento persiste de maneira intensa e compromete significativamente a vida social, familiar ou profissional, pode ser necessária uma avaliação especializada para identificar possíveis complicações do luto.
Não se trata de esquecer, mas de aprender a conviver
Durante a entrevista, Rafael destacou a importância de permitir que o luto seja vivenciado, sem tentar esconder ou acelerar o sofrimento.
A psicóloga concordou e explicou que evitar permanentemente o contato com a dor pode dificultar a elaboração emocional da perda.
Para Daniele, o objetivo não deve ser esquecer a pessoa que morreu, mas encontrar formas de continuar vivendo enquanto se preservam as lembranças e os vínculos afetivos.
Ela também questionou a pressão social para que pessoas enlutadas retomem rapidamente suas atividades e demonstrem estar bem.
Em uma sociedade marcada pelo imediatismo, segundo a profissional, existe uma cobrança para que o sofrimento tenha prazo para terminar.
No entanto, a experiência do luto é individual e não pode ser determinada por um calendário.
Embora existam referências utilizadas em estudos sobre o tempo de elaboração da perda, elas não estabelecem um prazo universal para que alguém deixe de sofrer.
A perda também transforma a identidade
Daniele chamou a atenção para uma dimensão menos discutida do luto: a transformação da própria identidade de quem permanece.
Além da ausência física, a pessoa pode precisar reorganizar hábitos, responsabilidades, relações familiares e projetos que imaginava compartilhar com quem morreu.
A psicóloga citou o chamado “luto do futuro”, relacionado aos sonhos, planos e experiências que não poderão mais ser vividos da maneira inicialmente imaginada.
Essa reorganização pode provocar mudanças profundas na forma como o indivíduo percebe a própria vida.
Segundo a profissional, o processo não significa abandonar as memórias, mas construir uma nova realidade na qual seja possível continuar vivendo com a saudade.
Luto não é doença, mas merece atenção
Questionada sobre a relação entre luto e depressão, Daniele esclareceu que o sofrimento provocado por uma perda não deve ser automaticamente interpretado como uma doença.
Sentimentos como tristeza, raiva, culpa, revolta e remorso podem surgir naturalmente durante o processo.
No entanto, a psicóloga alertou que dificuldades persistentes para lidar com essas emoções podem contribuir para o adoecimento psicológico e se manifestar também por meio de sintomas físicos.
Entre os exemplos mencionados estão dores musculares, enxaquecas e problemas gastrointestinais.
A profissional reforçou a importância de procurar acompanhamento psicológico quando o sofrimento se torna incapacitante, persistente ou interfere significativamente na rotina.
Como ajudar alguém que está de luto?
Durante a conversa, Rafael também perguntou quais atitudes podem contribuir para acolher uma pessoa que enfrenta a perda de alguém querido.
Daniele orientou evitar expressões como “seja forte” ou “a vida continua”, que, embora geralmente sejam utilizadas com boas intenções, podem transmitir a sensação de que a pessoa precisa esconder o sofrimento.
Segundo ela, o acolhimento deve acontecer por meio da presença, da escuta e do respeito ao momento emocional de cada indivíduo.
Pequenos gestos, como oferecer ajuda nas tarefas diárias, preparar uma refeição, fazer uma visita ou simplesmente permanecer ao lado da pessoa, podem ter um significado importante.
A psicóloga destacou que nem sempre é necessário encontrar palavras para consolar. Em muitos momentos, respeitar o silêncio e demonstrar disponibilidade é a melhor forma de oferecer apoio.
Dia de Finados e a importância dos rituais
Na parte final da entrevista, Daniele abordou o significado dos rituais de lembrança, especialmente durante o Dia de Finados.
Visitar o cemitério, levar flores, acender velas ou reservar alguns minutos para recordar uma pessoa querida são formas de preservar a memória e expressar sentimentos.
Segundo a psicóloga, essas práticas podem funcionar como momentos de autocuidado, permitindo que o indivíduo reconheça a saudade e mantenha simbolicamente os vínculos afetivos.
Ela também destacou que chorar, sentir tristeza e recordar momentos compartilhados são reações que não devem ser reprimidas.
A mensagem central da entrevista foi a importância de compreender que o luto não exige esquecimento nem possui um prazo determinado para terminar. Trata-se de um processo de adaptação à ausência, no qual cada pessoa precisa encontrar sua própria maneira de seguir em frente.
Ao encerrar o programa, o apresentador Rafael agradeceu a participação da psicóloga Daniele Yasnievsk e destacou a relevância da reflexão, especialmente em uma data dedicada à memória daqueles que já partiram.


