Entre a luta e a esperança: a história de Aroldo Brixner no enfrentamento ao câncer de próstata

A vida pode mudar a partir de um diagnóstico.

Planos, rotina e prioridades ganham novos significados quando a saúde passa a exigir atenção e cuidados constantes. Aos 60 anos, o empresário Aroldo Pedro Brixner, morador do distrito de Santa Cruz do Timbó, em Porto União, conhece de perto essa realidade. Diagnosticado com câncer de próstata em maio de 2023, ele enfrenta uma jornada de tratamento marcada por procedimentos médicos, desafios físicos e emocionais, mas também pelo apoio da família, pela espiritualidade e pela esperança.

A descoberta da doença aconteceu depois que Aroldo percebeu alterações na rotina urinária. Até então, ele conta que não tinha o hábito de realizar exames preventivos e acreditava que estava tudo bem com a saúde. A dificuldade para urinar e o aumento da frequência das idas ao banheiro foram os primeiros sinais que o levaram a procurar atendimento médico.

A confirmação da doença trouxe medo, angústia e incertezas. Como acontece com muitos pacientes, a palavra câncer carregava um peso emocional significativo. Aroldo lembra que, naquele momento, foi difícil imaginar o que viria pela frente.

“Aí o sentimento, né? O sentimento é uma angústia, assim, um medo, né? Do que tudo vinha pela frente… Você não saber tudo o que irá acontecer…”, afirma.

Apesar do impacto inicial, o empresário destaca que encontrou forças na família e na fé para enfrentar a notícia. A partir dali, começou uma caminhada que exigiria decisões importantes e uma rotina de cuidados que permanece até hoje.

Uma jornada de tratamento e desafios

Após a confirmação do diagnóstico, Aroldo e a equipe médica avaliaram as possibilidades de tratamento. Naquele momento, considerando o estágio da doença, a opção escolhida foi a cirurgia robótica, realizada em Curitiba, com acompanhamento de uma equipe médica que contou com um cirurgião de São Paulo.

Embora o procedimento tenha sido considerado um sucesso pela equipe médica, os exames posteriores apontaram uma evolução importante na classificação da doença. A situação exigiu a continuidade do acompanhamento e de novas intervenções.

Com o avanço do câncer e o surgimento de metástases, o tratamento passou a envolver diferentes etapas. Aroldo precisou realizar uma cirurgia na coluna, que já apresentava comprometimento, além de procedimentos para possibilitar a realização da radioterapia.

A radioterapia também passou a fazer parte dessa rotina. Até o momento do relato, ele já havia realizado 40 sessões e se preparava para iniciar a quimioterapia. Para Aroldo, cada etapa representa um novo desafio, mas também a oportunidade de continuar buscando qualidade de vida.

A distância de casa e as mudanças na rotina

Além dos procedimentos médicos, o tratamento trouxe mudanças na vida cotidiana. Em determinados momentos, foi necessário permanecer longe de casa para receber atendimento especializado, como em Joinville. Os deslocamentos e a necessidade de conciliar os cuidados com a vida profissional e familiar passaram a fazer parte da realidade do empresário.

Os efeitos físicos dos tratamentos também são sentidos no dia a dia. Segundo ele, os procedimentos podem ser invasivos e deixar o organismo mais debilitado, exigindo adaptação e paciência.

A experiência também transformou a maneira como ele enxerga o tempo e as relações. Situações antes consideradas simples passaram a ter outro significado. Mesmo diante das limitações impostas pela doença, Aroldo procura preservar a rotina e manter-se ativo.

“Você consegue ver a vida diferente, né? Você começa a dar valor para pequenas coisas. A gente consegue enxergar a vida diferente…” enfatiza.

O empresário reconhece que a saúde emocional também sofre impactos. Há dias mais difíceis, momentos de preocupação e a necessidade de lidar com sentimentos que nem sempre são fáceis de controlar. No entanto, acredita que manter uma vida familiar equilibrada, cultivar pensamentos positivos e encontrar motivos para seguir em frente são atitudes importantes durante o tratamento.

Família, amigos e fé: forças para continuar

Se a doença trouxe desafios, o apoio recebido ao longo da caminhada tornou-se um dos principais pilares para enfrentá-los. Aroldo destaca a presença constante da esposa, dos dois filhos, das noras, dos irmãos, amigos, e, em especial, do netinho Rafael.

“Eu tenho uma esposa que é maravilhosa, sempre! Eu tenho dois filhos também maravilhosos que hoje tem as suas esposas, né? E eu sempre tive um apoio muito grande, tenho, né? Até  hoje… Tanto da esposa, do filho, das minhas noras… Que são pessoas maravilhosas. Eu tenho meus irmãos, também, que sempre estão presentes dando força e o apoio dos profissionais da saúde é que estão fazendo a diferença no meu tratamento”, agradece.

A chegada do neto Rafael, hoje com dois anos e meio, também representa uma fonte especial de alegria e motivação. São esses vínculos que ajudam a tornar a caminhada mais leve, mesmo quando os desafios parecem maiores.

Além da família, ele faz questão de reconhecer o trabalho dos profissionais da saúde que o acompanham desde o início. A confiança na equipe médica e o comprometimento dos profissionais envolvidos são, segundo ele, fundamentais para enfrentar as diferentes etapas do tratamento.

A espiritualidade também ocupa um lugar importante nessa trajetória. Aroldo conta que sempre teve ligação com a religião e participação na igreja. Diante do diagnóstico, a fé tornou-se ainda mais presente, oferecendo conforto e força nos momentos de maior dificuldade.

“E uma das coisas que eu me agarrei bastante e continua até hoje é a parte espiritual. É a fé! Você acreditar que tem alguém superior, e é Ele que dá o destino que é de cada um”, diz.

Aroldo ressalta que a medicina e a ciência são indispensáveis, mas acredita que a fé complementa sua maneira de enfrentar a doença. Mesmo em tratamento, procura agradecer pelas possibilidades que ainda tem, especialmente por conseguir continuar trabalhando e mantendo parte de sua rotina.

“Então, eu, mesmo tendo essa doença, eu sempre agradeço a Deus. Hoje,  estou trabalhando normalmente, claro que com mais dificuldade, mas estou trabalhando. Deus tem me dado força, tem me ajudado. Então é isso que também é muito importante, a gente manter firme a parte espiritual, a fé, independente da crença da pessoa”, aconselha.

Um alerta sobre a prevenção

Ao compartilhar sua história, Aroldo deseja que sua experiência sirva de alerta para outros homens. Ele reconhece que a ausência de exames de rotina e o preconceito em relação aos cuidados com a saúde masculina contribuíram para que a doença fosse descoberta em estágio avançado.

Hoje, olhando para o caminho percorrido, acredita que, se tivesse procurado atendimento e realizado os exames preventivos anos antes, poderia ter enfrentado uma realidade diferente.

A mensagem que deixa é um convite para que os homens deixem o preconceito de lado, procurem orientação médica e mantenham os cuidados com a saúde em dia.

“Quando chegar o tempo, no caso, 40, 45 anos, fazer os exames. Porque até um tempo atrás existia esse preconceito, né? E eu vim dessa era. ‘Ah, está tudo bem, eu não vou… Vou no que vem’. E vai deixando e deixando, e no meu caso estou sofrendo na pele… Se há 20 anos atrás eu tivesse procurado, com certeza eu não teria enfrentado tudo que eu estou enfrentando, e teria sido muito mais fácil”, alerta.

Aroldo reforça que o diagnóstico precoce pode fazer diferença no enfrentamento da doença e evitar que outros homens passem por situações semelhantes.

“É muito melhor fazer um tratamento preventivo e você estar tranquilo, do você estar ‘tranquilo’ durante uns anos e de repente quando você percebe já é muito tarde, daí não tem mais o que fazer…”, complementa.

Novembro Azul: informação e prevenção são fundamentais para combater o câncer de próstata

O Novembro Azul é um período dedicado à conscientização sobre o câncer de próstata e à importância dos cuidados com a saúde masculina. Mais do que incentivar a realização de exames, a campanha busca romper preconceitos, estimular a prevenção e mostrar que procurar atendimento médico deve fazer parte da rotina dos homens.

Em Porto União (SC) e União da Vitória (PR), municípios que compartilham o cotidiano de milhares de moradores, o desafio também passa por questões culturais. Segundo o urologista Dr. Bruno Müller, do Hospital Regional São Camilo, ainda existe uma resistência masculina em relação aos cuidados com a saúde, muitas vezes associada à ideia de que procurar um médico é sinal de fraqueza.

“O Novembro Azul tem uma função que vai além do câncer de próstata: ele abre a porta para o homem falar de saúde”, explica.

O médico observa que a forte cultura de trabalho presente na região, marcada por atividades industriais, transporte, agricultura e outros setores, também contribui para que muitos homens adiem consultas por falta de tempo.

Quando começar a prevenção?

De acordo com as orientações da Sociedade Brasileira de Urologia, a recomendação é que os homens conversem com o médico sobre o rastreamento do câncer de próstata a partir dos 50 anos. Para aqueles que apresentam fatores de risco, essa conversa deve começar aos 45 anos.

Entre os principais fatores estão o histórico familiar da doença, especialmente em pai ou irmão, a obesidade e a raça negra, grupo que apresenta maior incidência e mortalidade pela doença.

O especialista ressalta, porém, que a idade indicada não significa que todos devam realizar exames automaticamente. A decisão precisa considerar o histórico de saúde, os exames anteriores e as condições individuais de cada paciente.

“Faço uma distinção importante, porque é onde muita gente se confunde: a idade é o momento de começar a conversa, não de fazer exame obrigatoriamente. O rastreio do câncer de próstata precisa ser uma decisão tomada junto com o médico”, esclarece Müller.

  Doença pode não apresentar sintomas no início

Um dos principais desafios no combate ao câncer de próstata é que a doença, em sua fase inicial, geralmente não apresenta sintomas. Quando os sinais aparecem, em alguns casos, o tumor já pode estar em estágio mais avançado.

Entre os sintomas que merecem atenção estão dificuldade para começar a urinar, jato urinário fraco, necessidade de levantar várias vezes durante a noite para ir ao banheiro, sensação de esvaziamento incompleto da bexiga, sangue na urina ou no sêmen e dores na região pélvica, na parte baixa das costas ou nos ossos.

O médico alerta que esses sinais nem sempre estão relacionados ao câncer. O crescimento benigno da próstata, por exemplo, também pode provocar alterações urinárias, especialmente com o avanço da idade.

“É importante entender que sintoma urinário não é motivo para pânico, mas é motivo para consulta”, destaca.

PSA e toque retal: exames complementares

A investigação começa com a avaliação clínica e a conversa entre médico e paciente. Entre os principais instrumentos utilizados estão o exame de PSA, realizado por meio de uma coleta de sangue, e o toque retal.

O PSA mede uma proteína produzida pela próstata. Quando os níveis estão elevados, pode haver indicação de alguma alteração, como inflamação, crescimento benigno da glândula ou câncer. Entretanto, um resultado elevado não significa necessariamente a presença de um tumor.

Já o toque retal permite que o urologista avalie a superfície da próstata e identifique possíveis áreas endurecidas ou irregulares. Segundo Müller, o procedimento é rápido, realizado no próprio consultório e não costuma provocar dor.

Os dois exames são complementares e um não substitui o outro. Quando há alterações, o médico pode solicitar exames adicionais, como ressonância magnética e, em determinadas situações, biópsia, responsável por confirmar ou descartar a presença do câncer.

Para o especialista, o preconceito em torno do toque retal ainda representa um obstáculo importante. A desinformação e a vergonha acabam afastando homens dos consultórios e podem atrasar a investigação.

Atendimento começa nas unidades de saúde

Nas redes públicas de saúde de Porto União e União da Vitória, os homens podem iniciar a busca por atendimento nas Unidades Básicas de Saúde (UBSs) de seus bairros, por meio das equipes de Saúde da Família.

Nesses locais, o médico realiza a avaliação inicial, solicita os exames necessários e, quando indicado, encaminha o paciente ao urologista por meio da central de regulação municipal.

Durante o Novembro Azul, as secretarias municipais de Saúde costumam promover atividades de orientação, mutirões e horários diferenciados de atendimento. A recomendação é procurar a UBS de referência para consultar a programação e verificar as possibilidades de agendamento.

O urologista também reforça que homens com plano de saúde devem aproveitar as consultas de rotina para conversar sobre a prevenção, sem esperar o aparecimento de sintomas.

Quebrar o preconceito também salva vidas

Na avaliação de Bruno Müller, o medo do diagnóstico, a vergonha dos exames, as barreiras culturais e a dificuldade de conciliar o atendimento médico com a jornada de trabalho estão entre os principais motivos que levam os homens a adiar os cuidados.

Para mudar esse cenário, o médico defende que a informação seja acessível e que os serviços de saúde facilitem o atendimento, inclusive com horários ampliados e ações de conscientização.

Ao deixar uma mensagem aos homens das duas cidades, o urologista reforça que o diagnóstico precoce aumenta significativamente as possibilidades de tratamento e cura.

“Se você adia por falta de tempo, pense que uma consulta e alguns exames custam menos tempo do que qualquer tratamento de câncer. Se adia por medo, saiba que o câncer de próstata descoberto no início tem chance de cura muito alta. E, se adia por vergonha, entenda que o toque retal dura segundos e que nenhum médico vai julgar você: ele está ali para cuidar”, afirma.

O especialista conclui com um alerta: cuidar da saúde não é sinal de fraqueza, mas uma demonstração de responsabilidade consigo mesmo e com a família.

“Marque a consulta. Leve o assunto a sério. E, se você tem mais de 50 anos, comece essa conversa neste mês.”