O ouro vermelho que transforma a vida de famílias em Matos Costa
Em Matos Costa, pequeno município do Planalto Norte de Santa Catarina, uma fruta de cor vermelha vem mudando a realidade de dezenas de famílias. Em uma região marcada pela história do Contestado, pela agricultura familiar e pela presença de assentamentos da reforma agrária, o morango ganhou espaço nas propriedades rurais e se transformou em uma importante fonte de renda.
Com pouco mais de três mil habitantes, Matos Costa possui uma característica que ajuda a explicar essa transformação: a maior parte da população vive no campo. São aproximadamente dois mil moradores na zona rural, contra cerca de mil na área urbana. É nesse cenário que o cultivo do morango se fortaleceu e passou a movimentar a economia local.
Segundo o engenheiro agrônomo Júlio Cesar Leão, da Secretaria Municipal de Agricultura, entre 80 e 90 famílias estão envolvidas com a atividade. Muitas delas vivem em assentamentos da reforma agrária e encontraram na fruta uma alternativa para garantir renda sem abandonar suas propriedades.
O grande diferencial está na frequência da colheita. Enquanto culturas tradicionais exigem meses de espera até a comercialização, o morango permite que o agricultor tenha uma entrada de recursos praticamente todas as semanas.
“Algumas famílias estão vivendo bem do morango. É uma cultura que toda semana coloca um recurso na propriedade do agricultor. Isso é bom para a comunidade, para a cidade e gera economia”, destaca Júlio Cesar Leão.
Uma cultura que exige dedicação todos os dias
Apesar da aparência delicada e do sabor adocicado, produzir morangos está longe de ser uma atividade simples. A cultura exige atenção diária, conhecimento técnico e investimentos constantes.
O produtor Renocélio Ribeiro Alves, conhecido como Reno, acompanha de perto essa rotina. Dentro das estufas, o trabalho começa muito antes da colheita e envolve limpeza, poda, controle de pragas, irrigação e acompanhamento das condições das plantas.
“O morango é uma das culturas mais difíceis de produzir hoje. Se você não tiver cuidado e dedicação, não consegue. Todo dia tem serviço, principalmente na época da limpeza e das colheitas”, explica.
O cuidado precisa ser permanente. Uma semana sem observar adequadamente as plantas pode ser suficiente para que uma infestação comprometa parte da produção.
Entre as principais ameaças está o ácaro-rajado, uma praga minúscula que ataca as folhas e pode se multiplicar rapidamente. Para identificar os primeiros sinais, os agricultores recorrem a inspeções frequentes e, em alguns casos, ao auxílio de lupas.
O vento também pode contribuir para transportar a praga entre áreas de cultivo, aumentando a necessidade de prevenção.
Mudas atravessam fronteiras até chegar às estufas
Uma das curiosidades da produção está na origem das mudas. Parte das variedades comerciais utilizadas pelos agricultores brasileiros vem de viveiros especializados de países como Chile, Argentina e Espanha.
Essas mudas podem chegar com as raízes nuas, conservadas sob refrigeração e em estado de dormência. Depois do plantio, retomam seu desenvolvimento e iniciam o ciclo produtivo.
Outro detalhe importante está na escolha das variedades. Existem morangueiros de dias curtos, cuja floração é influenciada pela duração da luz natural, e variedades de dias neutros, que apresentam menor dependência desse fator.
A escolha interfere no período de produção e na capacidade de manter o fornecimento de frutas em diferentes épocas do ano.
Mas não basta escolher uma boa muda. O clima também precisa colaborar.
De acordo com Júlio Cesar Leão, o morango é extremamente sensível às temperaturas. O frio excessivo pode interromper o desenvolvimento da planta, enquanto o calor intenso prejudica a formação e o amadurecimento dos frutos.
“Acima de 28 graus, a planta também pode parar de produzir, abortar a flor e travar. O morango não gosta de umidade nas folhas”, explica o engenheiro agrônomo.
Dentro das estufas, a temperatura pode ficar ainda mais elevada, exigindo controle da ventilação e da irrigação.
As estruturas de proteção também representam um investimento considerável. Além das mudas, os agricultores precisam adquirir lonas e materiais para montagem das estufas. Em períodos de granizo, os prejuízos podem ser significativos, com perfurações na cobertura e necessidade de reparos.
Do fumo ao morango: uma mudança de vida
A história da produtora Juliana Alves mostra que o cultivo representa mais do que uma alternativa econômica.
Antes de se estabelecer em Matos Costa, a família trabalhava com o cultivo de fumo no Oeste de Santa Catarina. A mudança de município também trouxe uma transformação na atividade agrícola.
Juliana conta que o trabalho com morangos proporcionou uma rotina diferente daquela vivida anteriormente.
“O morango é bem mais fácil. Antes a gente plantava fumo e agora trabalha com morango. É melhor para a saúde também”, relata.
Na propriedade, a família aposta no cultivo orgânico, utilizando práticas de manejo voltadas ao fortalecimento das plantas e ao equilíbrio biológico do solo.
O objetivo é produzir frutas de qualidade, sem recorrer aos agrotóxicos sintéticos proibidos nesse sistema de produção.
A colheita é realizada regularmente, em geral duas vezes por semana. Os frutos seguem para comercialização, garantindo uma entrada frequente de recursos e ajudando no orçamento familiar.
Para Juliana, uma das maiores satisfações está justamente na possibilidade de produzir um alimento que também é consumido pela própria família.
Fermento de pão e batata ajudam no manejo da lavoura
Nas propriedades de Matos Costa, o conhecimento técnico também se mistura às experiências dos agricultores.
Entre as práticas apresentadas durante as atividades de assistência técnica está a utilização de preparados biológicos produzidos a partir de ingredientes conhecidos, como fermento de pão, açúcar e batata.
Conforme explica o engenheiro agrônomo Júlio Cesar Leão, a proposta desses preparados é estimular a atividade microbiológica do solo e favorecer o desenvolvimento das raízes.
O agrônomo destaca que a qualidade do solo tem papel fundamental na saúde das plantas e na produtividade da cultura.
A Secretaria Municipal de Agricultura também vem incentivando capacitações práticas, realizadas diretamente nas propriedades. A proposta é aproximar a assistência técnica da realidade dos produtores, com orientações sobre manejo, nutrição vegetal, poda e utilização de bioinsumos.
Esse modelo permite que os agricultores compartilhem experiências, observem resultados e apliquem os conhecimentos adquiridos na própria lavoura.
Colheita frequente movimenta a economia do município
O crescimento do cultivo de morangos tem reflexos que vão além das propriedades.
A comercialização frequente possibilita a circulação de recursos no município, movimentando estabelecimentos comerciais, fornecedores de insumos e serviços ligados à agricultura.
Para as famílias, a vantagem está na possibilidade de organizar as despesas com uma entrada mais regular de dinheiro, embora os custos de produção e a necessidade de mão de obra também sejam elevados.
O morango exige investimento inicial em mudas, estruturas de cultivo, irrigação e outros materiais. Além disso, a fruta precisa ser colhida no ponto adequado e comercializada rapidamente, já que possui curta durabilidade depois da retirada da planta.
Mesmo diante dessas dificuldades, a atividade vem se consolidando como alternativa econômica em pequenas propriedades.
Outro aspecto importante é o fortalecimento da produção orgânica e sua ligação com a alimentação escolar. A aquisição de alimentos da agricultura familiar para a merenda contribui para aproximar os produtores das escolas e valorizar os alimentos cultivados no próprio município.
A atividade também apresenta possibilidades de crescimento por meio do processamento dos frutos, com a produção de geleias, polpas, doces e outros derivados, alternativas que podem reduzir perdas e agregar valor à produção.
Mais do que uma fruta, uma oportunidade de permanecer no campo
Em Matos Costa, o morango representa uma combinação de trabalho, conhecimento e oportunidade.
Para agricultores como Renocélio Ribeiro Alves, o desafio está em manter a produtividade diante das exigências da cultura. Para Juliana Alves, a mudança trouxe uma nova forma de trabalhar e cuidar da família. Já para o engenheiro agrônomo Júlio Cesar Leão, o fortalecimento da atividade demonstra o potencial da agricultura familiar na geração de renda.
Nos assentamentos da reforma agrária e nas demais propriedades rurais, as estufas passaram a fazer parte da paisagem e da rotina de quem encontrou na fruta uma possibilidade de construir o próprio sustento.
Por trás de cada caixa de morangos existe uma história de dedicação, investimento e superação das dificuldades impostas pelo clima e pelo mercado.
Em uma cidade onde o campo faz parte da identidade da população, o chamado ouro vermelho não representa apenas uma nova cultura agrícola. É também uma oportunidade de manter as famílias na terra, movimentar a economia e cultivar perspectivas para o futuro.
Ouça a reportagem completa aqui:
O Ouro Vermelho do Planalto Catarinense: A economia familiar e circular que mantém vivo o coração de Matos
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- Produtora Juliana Alves (JOC)
- Renocélio Ribeiro Alves, conhecido como Reno (JOC)
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